A noção de “passageiro” é central nas obras apresentadas por João Angelini durante sua residência no Koganecho Artist in Residence Program, em Yokohama. Ser passageiro é habitar uma condição temporária: atravessar lugares, culturas e sistemas de significado sem jamais pertencer completamente a eles. Angelini assume essa posição não apenas como um viajante que visita o Japão pela primeira vez, mas como um observador que transita por paisagens visuais, históricas e simbólicas moldadas pelo deslocamento, pela memória e pela troca.
Para Angelini, esse primeiro encontro com o Japão se desenrola por meio de um complexo circuito temporal. Muito antes de chegar fisicamente ao país, o Japão já habitava seu imaginário. Ainda criança, no Brasil, ele teve contato com a cultura japonesa por meio de mangás, animações e videogames — sistemas visuais que moldaram profundamente sua percepção de arquitetura, paisagem urbana e espaço narrativo. Essas referências culturais iniciais, absorvidas pela mediação da cultura de massa, formaram uma arquitetura simbólica que agora reaparece em seu trabalho, no confronto com as realidades materiais e espaciais das cidades japonesas.
A arquitetura desempenha um papel central nesse processo. Angelini observa o ambiente construído de Yokohama com o olhar atento de quem navega entre familiaridade e estranhamento. A cidade se torna um arquivo visual de formas, superfícies e ritmos, em forte diálogo com suas memórias de infância — habitadas por esse tipo de arquitetura, especialmente presente nos videogames. Na exposição, quatro pinturas que retratam fachadas de edifícios de Yokohama traduzem esses encontros em composições em camadas, que oscilam entre documentação e imaginação. As obras da série Volutosas - SEGA não são representações literais; funcionam como fragmentos arquitetônicos filtrados pela memória, pela percepção e pela tradução cultural. As fachadas aparecem como testemunhas silenciosas dos fluxos de pessoas — moradores, visitantes, trabalhadores, migrantes — que atravessam a cidade diariamente.
A investigação de Angelini também se estende para além do Japão, conectando a experiência presente de deslocamento às fundações históricas do Brasil e de sua cidade natal. Em A Linha do Desejo, o artista combina fragmentos de entulho retirados do muro de uma casa colonial em Planaltina, datada de cerca de 1830. Esses vestígios de arquitetura colonial — profundamente entrelaçados à história de exploração e expansão territorial do Brasil — são recombinados com padrões derivados de um templo budista em Kyoto visitado pelo artista. Com esse gesto, Angelini constrói uma ponte simbólica entre sistemas culturais distantes. O entulho colonial carrega o peso da violência histórica brasileira, enquanto os padrões do templo evocam uma geometria espiritual e contemplativa. A estrutura resultante se torna um objeto híbrido, no qual destruição e reconstrução coexistem. A obra sugere que as formas culturais também são passageiras, migrando no tempo e no espaço, constantemente reconfiguradas por encontros e reinterpretações.
A ideia de passageiro também se desdobra na reflexão de Angelini sobre materiais e circulação global. Algumas obras abordam as implicações simbólicas e econômicas do matcha, o pó fino de chá verde associado à cerimônia do chá japonesa. Nos últimos anos, o consumo global de matcha cresceu significativamente, transformando um elemento ritual cultural em um produto altamente mercantilizado. Esse aumento da demanda contribuiu para a elevação de preços e para mudanças agrícolas, em que o cultivo de chá passa a substituir o de arroz em algumas regiões.
Angelini aborda esse fenômeno em uma obra delicada e efêmera: Chasen, que representa o utensílio tradicional de bambu usado no preparo do matcha. A imagem é criada com o próprio pó de matcha. Com o tempo, o material oxida, se dispersa e gradualmente dissolve a forma do chasen. A obra se torna uma imagem temporal: a planta que simbolizava harmonia e ritual desaparece através de sua própria transformação em mercadoria. O que resta é o vestígio de um processo moldado pelo consumo e pela circulação global.
Outra obra, a animação Laissez Faire No. 5, aborda a preparação cerimonial do matcha por meio de um processo rigoroso de desenho. Composta por 1.580 desenhos individuais, a animação traduz os gestos do ritual do chá em uma sequência que oscila entre reverência e observação crítica. O título evoca o princípio econômico do laissez-faire, sugerindo a tensão entre tradição e forças de mercado que moldam cada vez mais as práticas culturais. A lenta acumulação dos desenhos reflete tanto a disciplina repetitiva dos gestos cerimoniais quanto o trabalho envolvido na produção artística.
Performance e fotografia também têm papel importante na exposição, sendo práticas constantes no trabalho de João Angelini. Aqui, ele apresenta a figura do “XetruáKyaku, um Tokusatsu Goiano”, um personagem fictício inspirado na estética das séries japonesas de tokusatsu — narrativas populares de super-heróis conhecidas por seus figurinos elaborados e cenas performáticas. O artista desenvolveu um traje e encenou fotografias em diferentes locais de Tóquio e Yokohama, inserindo essa figura híbrida na paisagem urbana. O personagem opera simultaneamente como homenagem, paródia e tradução cultural, fundindo o imaginário heroico da cultura pop japonesa com referências ao estado de Goiás, onde se enraíza a história familiar do artista.
Nessas fotografias, o XetruáKyaku aparece como um viajante entre mundos — um corpo estranho que atravessa a cidade enquanto encarna uma mitologia moldada pela imaginação da infância. O personagem evidencia a dimensão lúdica e crítica da prática de Angelini, na qual a cultura popular funciona como lente para examinar dinâmicas culturais mais amplas.
A exposição inclui ainda um vídeo contemplativo baseado na expressão japonesa 一期一会 (ichigo ichie), que pode ser traduzida como “uma vez, um encontro”. O conceito refere-se à ideia de que cada encontro é único e irrepetível. Angelini escreve os caracteres em uma folha de prática tradicional de caligrafia chinesa, que revela a tinta apenas temporariamente quando em contato com a água. À medida que a água evapora, a imagem desaparece lentamente. Filmado em câmera lenta, o vídeo captura esse processo de apagamento. A obra dialoga diretamente com a própria condição do artista como presença temporária no Japão. Assim como a caligrafia que se desfaz, a experiência da residência é transitória: um encontro que deixa marcas, mas não pode ser preservado em sua forma original. A dissolução gradual dos caracteres se torna uma meditação poética sobre tempo, memória e impermanência.
Ao longo da exposição, Angelini se posiciona como um passageiro que transita entre múltiplas coordenadas culturais: Brasil e Japão, imaginação infantil e experiência vivida, ritual e mercadoria, memória colonial e vida urbana contemporânea. Seus trabalhos não buscam resolver essas tensões, mas expor as conexões frágeis que emergem quando imagens, materiais e histórias atravessam fronteiras. Nesse sentido, “passageiro” não diz respeito apenas ao deslocamento físico, mas também à circulação de símbolos e narrativas. A exposição propõe que a própria identidade cultural é uma forma de passagem — construída por encontros, traduções e transformações.
A primeira experiência de Angelini no Japão, portanto, ultrapassa uma simples viagem geográfica. Trata-se de reconhecer como imagens que antes pertenciam ao campo da fantasia e da mediação cultural passam a integrar um ambiente concreto. Ainda assim, mesmo nesse encontro direto, o artista permanece consciente de sua condição de passageiro: uma testemunha em trânsito por uma paisagem onde cada encontro, cada imagem e cada gesto existem apenas uma vez.
