“A culpa não é do povo!” Nuno Ramos com Glauber Rocha por Victor da Rosa

Nuno Ramos
Outubro 20, 2026

“A culpa não é do povo!”

Nuno Ramos com Glauber Rocha

 

O trabalho de Nuno Ramos, sobretudo nos últimos anos, vem fazendo uso de um conjunto de obras artísticas alheias, de diferentes naturezas e procedências, como um método bem peculiar de composição. Em alguns dos seus projetos mais recentes, logo reconhecemos reproduções de Malevich e Van Gogh, assim como réplicas de obras emblemáticas da cultura brasileira, compostas originalmente por Goeldi, Drummond, Flávio de Carvalho e Nelson Cavaquinho. Em outras frentes, como parte do mesmo projeto artístico, Nuno chegou a codirigir uma ópera, Intolleranza, do compositor italiano Luigi Nono, e uma peça sinfônica, Terra em transe em transe, feita a partir da releitura da trilha sonora do clássico de Glauber Rocha, ambas em parceria com o artista Eduardo Climachauska. Compreender a peculiaridade de tal método se tornou uma chave de leitura não só da obra de Nuno, como também dos artistas que se fazem presentes em seus trabalhos.

Esses fragmentos de obras alheias, reproduzidas, refeitas e reinterpretadas, poderiam ser caracterizados, de maneira inequívoca, como espécies de fantasmas que assombram a imaginação do artista. Os formatos pouco importam: podem ser gravações musicais, pedaços de filmes, reproduções de formas geométricas, poemas. Não são propriamente homenagens, embora em geral Nuno faça uso de obras artísticas que admira profundamente, nem “apropriações”, já que o método não implica em tomar a coisa para si. Com uma autoconsciência intensificada, a operação nunca ou quase nunca é cifrada: o artista faz questão de explicitar e expressar a assinatura do original como parte importante da sua obra. Também não estamos falando mais de procedimentos amplamente categorizados pelas teorias da arte moderna e pós-moderna, como a paródia e o pastiche, embora possa ter com eles algum tipo de parentesco.

Em um dos seus ensaios recentes, Nuno Ramos falou de uma espécie de “euforia da influência” – na qual a influência passa a ser o ponto de partida da criação, “algo a ser aceito, algo a partir do que se cria e se escreve, um lugar firme para pisar”. Ao inverter a célebre fórmula do crítico literário Harold Bloom, que definia a influência como causa de negatividade e “angústia”, Nuno abre uma porta, ao aceitá-la quase sem reservas, para uma distensão máxima de suas possibilidades estilísticas. Quer dizer, é o próprio acesso aos estilos e às formas autorais que se torna matéria de composição para o artista. Como se a linguagem do ensaísmo geral fosse agora incorporada em sua obra como método artístico.

Entre esses fantasmas e influências, Glauber Rocha passou a ocupar lugar decisivo, e isso pelas mais diversas razões, entre as quais – talvez a principal delas – porque os seus filmes descrevem “com exatidão chocante o projeto político que prevalece hoje entre nós”, conforme Nuno escreveu em outro ensaio, este sobre Glauber. Para o artista, Deus e o diabo na terra do sol é um dos filmes mais originais do cinema brasileiro, justamente por aliar, de modo consciente, uma extraordinária força mitológica/ritualística a um repertório cultural consolidado, que, por sua vez, também atravessa diferentes formas artísticas brasileiras, de Villa-Lobos aos repentistas do Nordeste, de Graciliano Ramos à literatura de cordel. Quanto a Terra em transe, para Nuno, o seu valor se explica por motivos quase opostos, e que se coadunam mais com a proposta da presente instalação: nele, ao buscar “o calor da hora”, Glauber fez uma parábola do país.

É a partir de fragmentos dos dois filmes clássicos de Glauber que o novo trabalho de Nuno Ramos opera: A culpa não é do povo, título da sua instalação, é uma fala dita tanto em Deus e o diabo na terra do sol (1964) quanto em Terra em transe (1967). Portanto, de saída, a instalação de Nuno nos convoca a rever os filmes de Glauber à luz das políticas do presente, e a refletir especialmente, em cada caso, sobre o contexto e as condições de produção dessa sentença cheia de significados ambíguos e contraditórios. No primeiro filme, quem diz a frase é o cego Júlio, o repentista, em diálogo com o matador Antônio das Mortes, antes de questioná-lo se é matando que ele pretende resolver o problema do povo (a miséria). “A culpa não é do povo, Antônio!”, grita o cego, sem obter qualquer resposta, fazendo a frase ecoar no vazio de uma paisagem do sertão. No filme de 1967, Glauber leva a sentença ao paroxismo naquela que se tornou a cena mais famosa do seu cinema, momentos antes de o poeta-intelectual Paulo Martins tapar a boca do “povo”, acusá-lo de “imbecil, analfabeto e despolitizado”, e nos perguntar, olhando em direção à câmera, em tom de desafio: “Já pensaram em Jerônimo [o povo] no poder?”

Na instalação de Nuno, vários macaquinhos de brinquedo batem seus pratinhos entre projeções das cenas nas quais se repetem em loop as duas falas: são mais ou menos dez segundos de cada uma delas, mas escolhidos a dedo. Por um lado, o artista praticamente nos obriga a escutar a mesma sentença, afinal são quase vinte macaquinhos chamando a atenção para ela de modo ininterrupto. Por outro, o elemento sarcástico e histriônico da instalação, de algum modo ao estilo do próprio cinema de Glauber, é acompanhado por uma informação nova, que é a transformação dos seus filmes em uma espécie de teatro infantil, antifábula kitsch ou mesmo kafkiana. Nesse sentido, aliás, a instalação pode ser pensada como um segundo ato do concerto sinfônico que Nuno codirigiu, Terra em transe em transe, pois aqui também os macaquinhos – em transe – regem o seu concerto, não com a trilha sonora do filme, mas com as falas dos seus personagens.

Para o artista, em suma, o fato de haver uma mesma e única fala no filme da esperança (Deus e o diabo na terra do sol) e no filme da crise política (Terra em transe) demonstra a profunda conexão de Glauber com o país, e sua percepção política brutal, que diz respeito à perda e à crise do lugar do “povo” no imaginário e na construção simbólica das elites brasileiras, tanto políticas quanto artísticas e intelectuais. Pelo jeito, tudo isso ainda dá muito o que pensar. Com o trabalho de Nuno, afinal, tal percepção ganha novo fôlego, fazendo ressurgir os dilemas daqueles anos na devastação política contemporânea.

 

Victor da Rosa

Professor de Literatura Brasileira na UFOP