Estamos em um cemitério de automóveis. A cordilheira composta de ferro-velho circunda uma porção de água radioativa. As carrocerias amassadas, montadas umas sobre as outras, limitam o horizonte, anulam o ponto de fuga, assomam-se monstruosas, avançando sobre nós. Essas máquinas de carregar gente agora estão paradas, seus pneus girando em falso, cada pedaço parte de uma ruína total. No entanto, à medida que o olhar se demora sobre essa massa metálica, a pintura revela uma profusão de detalhes: figuras humanas surgem entre os destroços, pequenas ações se insinuam, o cotidiano se estabelece. A montanha de carros deixa de ser apenas um bloco compacto e passa a funcionar como um campo narrativo. Cada personagem parece carregar uma história possível. São sobreviventes de um mundo que ruiu ou nativos desse caos? Eles circulam entre as carcaças como quem procura um futuro perdido ou como quem já aprendeu a viver entre restos? A pintura oferece um cenário para as indagações de quem observa, abrindo espaço para múltiplas hipóteses: talvez esperem reconstruir algo, talvez terminem de destruir.
Esse universo figurativo é resultado do itinerário técnico de Mateus Moreira, que se apresenta aqui nesta nova série de pinturas. O artista parece ver na ambiguidade das coisas seu motor, aquilo que motiva a pintura. Às vezes é uma mancha de cor que se parece com um cachorro; outras, um acidente que se assemelha a um rio. Há ainda aquelas imagens que surgem de suas experiências, acordadas ou dormindo: cenas enigmáticas entre o desespero e a esperança, o sucesso e o fracasso, o progresso e a destruição. Diante desses polos, é surpreendente que ele não aplique um juízo, não feche cada quadro em uma narrativa moral que denuncie a falência da civilização ou pregue sua resiliência. Ao contrário, ele tem a coragem de deixar que as cenas se abram para a relação com o público que - saturado de contemplar imagens de começo e fim - pode agora se posicionar frente a elas.
No percurso que Mateus habilmente constrói, dragando-nos para dentro de seu mundo, há a demonstração do duplo aspecto característico de qualquer experiência estética. De um lado, o olho percebe a narrativa. De outro, a mesma superfície se afirma diante de nós como trabalho de arte, feito de linhas, massas de cor, espalhadas com a espátula ou resultantes de gestos do pincel. Quem olha precisa oscilar continuamente entre esses dois registros. O próprio artista se equilibra nessa fronteira o tempo todo. Desde os esboços em seu pequeno caderno até as grandes telas, ele produz acidentes, pequenos cataclismos, que vão corrompendo a imagem, apagando partes construídas, somando elementos dissonantes, no limite entre terminar e começar um novo trabalho do zero.
Essa tensão é constituinte das cenas representadas. Os destroços podem indicar uma civilização que colapsou - ou a matéria bruta a partir da qual algo novo está prestes a ser reconstruído. Ainda que as pinturas não se remetam a qualquer lugar do mundo (e ao mesmo tempo a todos), o modo de habitar essa ambiguidade é certamente próprio da sobrevivência no Brasil: país precário que converte o fracasso em modo de vida, arranjando-se como dá; onde a falha é recurso para a imaginação. Como na própria pintura, também aqui o sentido permanece suspenso entre dois polos: ruína e possibilidade.
Yuri Quevedo
