O sertão é uma espera enorme por Taisa Palhares

Louise Ganz
Março 20, 2026

 O sertão é uma espera enorme.[1]

 

A exposição “O vento é verde” reúne trabalhos inéditos de Isaura Pena, Júnia Penna e Louise Ganz, artistas que exploram maneiras de vivenciar a paisagem como índice de um tempo processual, no qual natureza e história se entrelaçam como elementos indissociáveis de transformação. Longe de uma posição romântica que observa a natureza como imagem idílica de um paraíso perdido, as artistas a percebem como cultura, resultado da agência humana e não humana na interação com o mundo natural. Assim como na literatura de Rosa, o mergulho na paisagem mineira é o mote para a transcriação de uma linguagem que instaura novos universos poéticos.  São trabalhos que, apesar das aparências distintas, lidam com a temporalidade estendida do gesto enquanto desbravador de arquiteturas orgânicas assentadas sobre um fluxo espaço-temporal não-linear. Em certa medida, busca-se tanto preservar o que está prestes a desaparecer quanto registrar o avanço irreversível da destruição.   

As pinturas de Louise Ganz nascem do exercício peripatético que caracteriza sua trajetória artística. Em caminhadas pelo Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, a artista observa e registra a riqueza do bioma Cerrado, reconhecido por sua vasta biodiversidade. A paisagem é marcada pela vegetação gramínea, arbustos de troncos retorcidos e casca espessa, além de árvores de raízes profundas que sobrevivem ao extrativismo predatório desde o período colonial. A região retratada pela artista está inserida no chamado Quadrilátero Ferrífero, território que, nos últimos anos, tem sido palco de recorrentes desastres ambientais e humanos. Trata-se de uma área constantemente ameaçada por novas explorações, perpetuando uma longa e trágica história de agressão ao meio ambiente, que parece se repetir incessantemente.

Distante da visão dos viajantes naturalistas — que tentaram enquadrar o território em uma forma clara e ordenada —, Louise recria a paisagem em sua densidade de experiência temporal, formando um emaranhado de linhas e manchas coloridas que dão conta de expressar a vivência sinestésica e corporal de abundância natural. A tinta aquosa, que simula o mundo em fusão, traz à memória as últimas paisagens liquefeitas pintadas por Guignard. Um mundo que observamos simultaneamente de perto e de longe, em que a linha do horizonte é maleável e parece prestes a se dissolver na materialidade informe. Essas pinturas revelam um processo de transformação contínuo, similar à energia silenciosa das águas subterrâneas.    

No grande desenho da série “Foco”, Júnia Penna cria estruturas retorcidas observadas no Parque Ursulina de Andrade Mello, que teve 1/3 de sua área queimada em 2024. Com grafite e gravetos que recolheu no local do incêndio, ela desenha uma trama de dimensão ambiental, instaurando uma arquitetura orgânica marcada por linhas que sinalizam caminhos feitos de desvios e continuidades.  Nessa teia emaranhada, que é elaborada de maneira lenta e cumulativa, reconhece-se uma espécie de ordenação espontânea.

Nos trabalhos de Júnia, texturas e formas da natureza se transformam em elementos gráficos quase abstratos. Troncos, folhas, veios, cascas, cipós e fendas tornam-se elementos de construção visual. Um trabalho lento e cotidiano de tessitura, em que a ação da artista não se dá como imposição, mas como escuta atenta da matéria, respeitando seus ritmos, resistências e possibilidades formais. Como nas pinturas de Louise Ganz, em que o fazer e a observação são depositados na própria composição das telas, aqui também a experiência temporal se desdobra em materialidade. É o caso do desenho “Sem título”, realizado ao longo de seis anos. Iniciado em 2020, durante a pandemia de Covid, o trabalho continua a se expandir, como se o gesto da mão acompanhasse o movimento orgânico de crescimento de um ser vivo. Neste sentido, a obra incorpora a temporalidade do processo em sua própria estrutura, materializando-o em uma geometria de tramas irregulares.      

Em seus desenhos, Isaura Pena costuma investigar as diversas camadas que moldam uma forma final. Trata-se de mostrar, por meio de uma linguagem muito concisa, tal como a aguada em nanquim, o movimento de transformação que caracteriza todo e qualquer trabalho. Tal procedimento envolve uma temporalidade que aponta para a sedimentação, alcançada por ações de adição, acúmulo, repetição e subtração.  Nessa linha, a corporeidade das obras (geralmente em tons de preto, branco e cinza), é resultado de uma lenta e paciente elaboração e transposição das formas por meio do gesto e seus deslocamentos sobrepostos.  

 Na série de três desenhos apresentada na exposição, Isaura se baseia nas plantas baixas originais do Parque Municipal de Belo Horizonte, elaboradas por Aarão Reis e Paul Villon no final do século 19, como parte do projeto de implementação da nova capital de Minas Gerais. Espaço simbólico de encontro entre o urbano e a natureza, o parque logo se tornou uma das principais atrações da cidade, além de ser cenário para muitos artistas e pintores que buscaram retratar sua paisagem. Sua intenção é recuperar a memória de sua criação, combinando a sobreposição de linhas de força que constroem a paisagem projetada, que em sua origem tem algo de imaginário, na medida em que é já a elaboração da natureza como cultura. Nos desenhos, o trânsito entre o orgânico e o abstrato aponta para o movimento de transição que caracterizou a própria história do parque, que originalmente ocupava uma área maior. No ato de “redesenhar o desenho”, a artista preserva de maneira poética as camadas que entrelaçam memória e desaparecimento.   

 

Taisa Palhares

 

 

 



[1] Frase retirada de carta de Manuel Bandeira a João Guimarães Rosa (13/03/1957), na qual o poeta comenta o impacto da leitura de Grande sertão: Veredas. Na missiva também se encontra a frase “O vento é verde”, que dá título à exposição.